CEPA CENTRO EDUCACIONAL DE PESQUISA APLICADA

Não é somente no âmbito das escolas de ensino superior que se buscará a arquitetura moderna enquanto linguagem capaz de expressar novas ideologias educacionais. Em meados do século XX, seriam desenvolvidas no país as chamadas Escolas-Parque, cujo formato considerado inovador se veria muito bem representado por tal movimento. As Escolas Parque constituíam complexos de educação em tempo integral que visavam alcançar as camadas populares, também levando em conta a formação de professores (BUFFA e PINTO, 2002). Com essa lógica será implantado, em Maceió, o Centro Educacional do Estado (CEE), posterior Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (CEPA), representando uma tentativa de integração da cidade a um plano nacional de desenvolvimento, onde a educação assumia importante posição, em meio à realidade de extrema desigualdade resultante de uma sociedade ainda fortemente ligada às oligarquias.

Construído durante a gestão do governador Arnon de Melo (1951-1956), a partir de recursos federais do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), presidido na época por Anísio Teixeira, conceituado pesquisador da área educacional no Brasil, o projeto seria elaborado pelos renomados arquitetos baianos Diógenes Rebouças e José Bina Fonyat, conterrâneos de Anísio Teixeira, sendo o primeiro o autor de grande parte dos projetos idealizados pelo educador. Seguindo os moldes dos Centros Educacionais da Bahia e por muitos anos ocupando o posto de maior complexo educacional da América Latina, o CEPA representaria um marco na educação pública de Alagoas, dada a oferta ampliada de vagas e funcionamento em tempo integral, mas sobretudo por voltar-se para a formação técnica, profissional e artística, agrupando inúmeras funções em um único espaço urbano: diversas escolas primárias e secundárias, equipamentos de lazer e esportes, biblioteca, salas de estudos, alojamento e centro de treinamento para professores, observatório astronômico e teatro.

Esse amplo complexo seria inaugurado em 1958, mas começaria a funcionar sem todas as etapas concluídas. Sua implantação teria lugar em um ambiente isolado, num ponto mais distante da avenida Fernandes Lima, no bairro do Farol, atestando a expansão urbana de Maceió na segunda metade do século XX. Configurada enquanto novo eixo de desenvolvimento comercial, residencial e de serviços da capital alagoana, essa estrada veria modificado o território da cidade (LIMA JUNIOR, 2001), tornando-se o lugar de uma significativa produção da modernidade arquitetônica e urbanística local.

O CEPA constitui um exemplar expressivo desse movimento e seu repertório ilustra inúmeras das características modernas, na forma de brises, cobogós, venezianas, modulação da estrutura e clareza dos materiais, além da linguagem plástica anti-historicista, rompendo completamente com a lógica que regia as primeiras escolas religiosas e grupos escolares da cidade.

Das onze escolas construídas – parte na primeira administração do CEPA, entre 1958 e 1968 e o restante até 1971 – todas estão em funcionamento, assim como a biblioteca, o teatro, o centro de formação para professores e os alojamentos. Novos usos foram agregados com o tempo, como escola de artes, ginásio esportivo, uma instituição voltada ao ensino de jovens e adultos e ainda os edifícios do Conselho Estadual de Educação e da Rádio Educativa.

Certos partidos arquitetônicos podem ser observados nos projetos construídos. Alguns se encontram repetidamente em diferentes escolas, constituindo tipologias organizacionais de planta, como a configuração em pátios, que permite uma melhor ventilação e aproveitamento da iluminação natural no interior dos prédios, funcionando ainda como ambientes para atividades coletivas, apresentações e brincadeiras, promovendo o desenvolvimento social das crianças e potencializando a função educativa da escola. São encontrados diferentes formatos, inclusive com beirais de telhas sobre pilares de concreto circundando a área aberta, criando espaços sombreados na forma de loggias.

A circulação de ar é feita ainda pelas variadas aberturas existentes nas escolas. Aqui se destacam elementos modernos como cobogós e brises, que concorrem para melhorar a ventilação, já que muitas janelas se acham posicionadas a oeste, expostas a uma orientação de baixa pressão eólica. Mas há também outros arranjos espaciais, como o uso de tesouras treliçadas metálicas no sistema estrutural da coberta: apoiadas sobre as paredes que dividem as salas de aula, sustentando as telhas, deixam um vão entre a parede e a cobertura, promovendo uma eficiente ventilação cruzada e renovação do ar.

A volumetria dos edifícios que compõem o CEPA se expressa basicamente pelos jogos de volume entre os ambientes, como saliências e apêndices na fachada. Outra expressão plástica comum às escolas trata dos cheios e vazios, das relações entre a alvenaria e as aberturas. Porém, a composição volumétrica mais marcante na apreensão espacial dos prédios se dá com o uso de organizações aglomeradas, que agrupam seus ambientes conforme exigências funcionais de tamanho, formato ou proximidade, sem expressar, necessariamente, um ponto comum de onde convergem as formas (CHING, 1998).

Este tipo de organização permite uma grande flexibilidade na composição. Cada escola difere no formato, no tamanho, orientação e estrutura. Pode-se constituir uma volumetria dinâmica e aglomerar os ambientes prevendo-se sua expansão, sem descaracterizar a expressão original do projeto.

Os espaços de certas escolas e edifícios do CEPA se destacam em meio à análise funcional do todo, apresentando ambientes peculiares a sua função, que servem de apoio às atividades que ali serão desempenhadas, tendo programa de necessidades mais detalhado. Assim, algumas plantas apresentam áreas que se sobressaem na setorização comum de escolas: salas de aula, serviços, administração e recreio. É o caso da creche que, para o ensino infantil, apresenta banheiros dentro da sala, possibilitando maior controle das crianças por parte dos educadores. Já a Escolinha de Artes comporta até um miniauditório com palco e camarim, como apoio para pequenos espetáculos de dança e música da própria escola. Os prédios do CEPA foram dispostos sempre de modo a melhor aproveitar o espaço do terreno, tendo-se previsto áreas de desporto como pista de atletismo e quadras poliesportivas em diversos pontos. Há também pequenas áreas pavimentadas, providas com pouco mobiliário urbano e pouca vegetação, próximas aos acessos de algumas escolas. Esse agenciamento paisagístico se configura como um pátio externo a cada uma das instituições de ensino, utilizado muitas vezes pelos alunos durante o recreio ou ao término do dia letivo. Outros lugares de pequena permanência são canteiros entre as vias de circulação, como agenciamentos para distinguir a passagem de pedestres e veículos. Embora haja bancos em alguns deles, a falta de arborização impede maior permanência, devido ao clima predominantemente quente de Maceió.

Por fim, deve-se ressaltar a implantação do Teatro Linda Mascarenhas, esse importante equipamento de lazer e entretenimento local e também municipal. Situado rente à avenida Fernandes Lima, o teatro apresenta acesso exclusivo e restrito e também um estacionamento, o que lhe permite funcionar em horários diferentes daqueles do CEPA, como em finais de semana ou à noite.

Você pode localizar esta edificação em Maceió através do Google Maps (clique aqui) e também visualizá-la no Google Street View (clique aqui)!

Referências Bibliográficas

BUFFA, Ester e PINTO, Gelson de Almeida. Arquitetura e educação: organização do espaço e propostas pedagógicas dos grupos escolares paulistas, 1893/1971. São Carlos: EDUFSCar, 2002.

CHING, Francis D. K.. Arquitetura, forma, espaço e ordem. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

LIMA JÚNIOR, Félix. Maceió de outrora. Maceió: EDUFAL, 2001.


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