ANTIGA FACULDADE DE MEDICINA DE ALAGOAS

A linguagem moderna evidenciada pelas primeiras edificações de ensino superior no estado de Alagoas, a partir da capital Maceió, nem sempre se apresenta focada no que havia de mais inovador dentre as premissas deste movimento, abrigando por vezes tendências conciliatórias com formas arquitetônicas mais conservadoras. Este parece ser o caso do estilo adotado na construção da antiga Faculdade de Medicina, instituída em aspecto Neocolonial. É no trabalho da arquiteta Vanine Amaral (2009) que encontraremos maiores referências neste âmbito:

O Neocolonial aparece em Maceió, seguindo uma tendência regionalista, com um retorno ao uso de elementos tradicionais, como telha canal, pátios, varandas e detalhes em azulejos decorados. No entanto, não se reveste de um ímpeto contraditório com o modernismo. A maioria de seus arquitetos praticantes, logo tornam-se adeptos do movimento moderno, revestindo estes elementos tradicionais de uma tônica moderna e atualizada. (AMARAL, 2009, p. 97).

Situada na praça Afrânio Jorge, popularmente conhecida como “praça da Faculdade”, a antiga Faculdade de Medicina atuaria como elemento dinamizador de seu entorno imediato. Seria um edifício instituído no antigo largo que viria a abrigar a faculdade, em meados do século XX. Construído em 1871 pelo Governo Federal para abrigar a sede do Quartel do 20° Batalhão de Caçadores, o prédio se tornaria a sede do Quartel do Exército, trazendo composição volumétrica e fachada em estilo Neoclássico, assim permanecendo até a década de 1940, quando todo o contingente militar seria transferido para uma nova construção na parte alta da cidade, entrando o imóvel em estágio de arruinamento.

Coincidentemente, é nessa mesma década que começaria a ser gestada a idéia da criação de uma Faculdade de Medicina, mais precisamente no ano de 1949, pelo Dr. Abelardo Duarte. Ao empreendimento agregaram-se outros 16 médicos que ao longo do ano se reuniriam para tratar de sua organização, deliberar sobre a estruturação institucional e formação do corpo docente. O esforço conjunto teve êxito: em 03 de maio de 1950 fundava-se a Faculdade de Medicina de Alagoas. No entanto, somente em janeiro de 1951 seria obtida a autorização do Ministério da Educação para seu funcionamento.

Assume a diretoria o Dr. Ib Gatto Falcão que, juntamente com os outros membros dá início à busca por instalações físicas próprias. É o próprio Abelardo Duarte, secretário da recém-criada Faculdade de Medicina, que nos dá maiores detalhes:

[…] apelamos para o Governo Federal, através de proposição feita pelo deputado Medeiros Neto, na Câmara Federal, no sentido de que nos fosse doado o antigo Quartel do 33º BC, à praça Afrânio Jorge, então, quase em ruínas (DUARTE apud SIMÕES, in: Documentário Histórico, 1982, p. 28).

Obtida a doação do prédio, este seria reformado a partir de fevereiro de 1951 pelo arquiteto Jofre Saint-Yves-Simon, que o transformaria de Neoclássico para Neocolonial, num viés modernizador, adaptando-o ao novo programa de necessidades da Faculdade de Medicina, com espaços para a ministração de aulas e pesquisas em laboratórios específicos. Em 1953 seria construído o Instituto Estácio de Lima (atual Instituto Médico Legal) para apoio à própria unidade acadêmica, baseado no mesmo estilo arquitetônico utilizado na faculdade, capitaneado pelo referido arquiteto.

A antiga Faculdade de Medicina apresenta a fachada em composição simétrica de predominância horizontal, com a entrada central demarcada por painel de azulejos sobre os vãos referentes ao térreo e ao primeiro pavimento, um destes um pequeno nicho trazendo bastão ladeado por serpentes, símbolo da Medicina. Faz uso de um pórtico composto por pseudo-colunas em estilo Salomônico e capitel perfilado, de friso curvo acimalhado, com adornos em massa em forma de losango na platibanda e abaixo dos peitoris das janelas do pavimento térreo, também cercadas por colunetas em estilo Salomônico, tendo as esquadrias em madeira e vidro.

O espaço interior é bem compartimentado, possuindo dois pavimentos e um pátio interno ajardinado, proporcional em relação à área ocupada, ornamentado com espelhos d’água, trazendo a caracterização da alvenaria edificada em estilo mais sóbrio, atestando o antigo Neoclássico.

Em 10 de dezembro de 1956 seria formada a primeira turma de médicos alagoanos. A faculdade se manteria como instituição particular até a década de 1960, quando é incorporada para a criação da Universidade Federal de Alagoas, vindo a integrar o Centro de Ciências Biológicas – CCBi, mantendo-se em funcionamento no prédio original mesmo com a criação do novo Campus A. C. Simões da UFAL na década de 1970 e recebendo nova denominação como Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), agora uma Unidade Acadêmica, já na primeira década do século XXI. Em 2011, quando são comemorados os 50 anos da universidade, o prédio recebe um projeto de restauro que visa transformá-lo em Memorial da UFAL, sendo a maior parte dos cursos transferida para o campus.

No entorno da faculdade encontram-se edifícios residenciais, comerciais e empresariais, bem como o cemitério Nossa Senhora da Piedade, que não faz ligação direta com o edifício e o IML. O conjunto formado pela edificação, junto com a praça da Faculdade, contendo ainda um pequeno Panteão, erigido na década de 1950 para abrigar os restos mortais dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, constitui um conjunto reconhecido como Unidade Especial de Preservação Cultural – UEP, conforme dispõe o Plano Diretor do Município de Maceió, Lei Municipal nº 5.486, de 30/12/2005.

Referências Bibliográficas

AMARAL, Vanine Borges. Expressões arquitetônicas de modernidade em Maceió: uma perspectiva de preservação. 2009. Dissertação (Mestrado em Dinâmicas do Espaço Habitado) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2009. 174 p.

PREFEITURA MUNICIPAL DE MACEIÓ. Plano Diretor do Município de Maceió, Lei Municipal nº 5.486, de 30 de dezembro de 2005.

SIMÕES, A.C. Histórico da Fundação da Faculdade de Medicina de Alagoas. In: Universidade Federal de Alagoas: documentário histórico. Maceió: UFAL, 1982. 775 p.


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