ANTIGA ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS

Firmando-se como uma linguagem nova, a arquitetura moderna se desenvolverá, muitas vezes, a partir de estilos híbridos, de identificação variável, defrontando-se com o permanente desafio de adequação entre o antigo e o novo. Assim se configura a construção do antigo Campus Tamandaré, atual sede do DETRAN-AL, cujos traços nos remetem tanto à arquitetura dita Neocolonial como àquela de traços modernos, mostrando-nos Amaral (2009) como estas tendências se acham fortemente relacionadas:

O Neocolonial aparece em Maceió, seguindo uma tendência regionalista, com um retorno ao uso de elementos tradicionais, como telha canal, pátios, varandas e detalhes em azulejos decorados. No entanto, não se reveste de um ímpeto contraditório com o modernismo. A maioria de seus arquitetos praticantes, logo tornam-se adeptos do movimento moderno, revestindo estes elementos tradicionais de uma tônica moderna e atualizada. (AMARAL, 2009, p. 97).

É no ano de 1954 que encontraremos o início da construção da Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas, acontecimento verdadeiramente transformador para a ocupação urbana do bairro do Pontal da Barra, litoral sul de Maceió, empreendido sobre o primeiro núcleo de povoamento local, alterando-o completamente. Seu funcionamento seria iniciado no ano de 1968, com turmas de aproximadamente 400 alunos, estabelecidas até o ano de 1971. Já em 1972 a instituição seria extinta e através de convênio firmado entre a Universidade Federal de Alagoas, Ministério da Educação e Cultura e Ministério da Marinha, suas instalações são cedidas para nelas funcionar a UFAL, que ali se instala no ano de 1973 com o chamado Campus Tamandaré.

Segundo Cavalcante e Verçosa (2011), a UFAL teria surgido a partir da mobilização dos dirigentes da Faculdade de Medicina, que buscavam federalizar a instituição e passariam a liderar um movimento para a criação da universidade. Tal fato se consolidaria no dia 25 de janeiro de 1961, por ato do então presidente Juscelino Kubitscheck. A recém-criada Universidade Federal de Alagoas passaria a englobar as diversas faculdades isoladas existentes em Maceió, a saber: a Faculdade de Direito, fundada na década de 1930 e diversas outras surgidas na década de 1950, tais como Medicina (1951), Filosofia (1952), Engenharia (1953), Ciências Econômicas (1954) e Odontologia (1957).

Seus primeiros reitores se dedicariam ao esforço de consolidação de instalações físicas adequadas ao funcionamento da instituição. Assim, em 1966 surgiriam as edificações do Restaurante Universitário, Federação Alagoana do Desporto Universitário, Diretório Central dos Estudantes e Residência Universitária na região da praça Sinimbu, sendo iniciada um ano depois a construção da Cidade Universitária no bairro do Tabuleiro do Martins, com novos prédios que receberiam inúmeros cursos entre 1969 e 1971.

Entre 1971 e 1975, visando suprir o programa de expansão da universidade, o reitor Nabuco Lopes lançaria mão tanto do investimento em novos prédios e instalações quanto da utilização de edificações cedidas para abrigar os cursos existentes. O convênio firmado para a cessão, em comodato, da antiga Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas, em vias de ser desativada, obedecerá à segunda lógica. O novo campus será nomeado em homenagem ao patrono da Marinha da Guerra, Marquês de Tamandaré.

Conforme Azevedo (1982), o campus abrangia o majestoso Edifício Paulo VI, onde se desenvolvia a principal programação escolar, contendo a administração das unidades, 36 salas de aula, a biblioteca central (com mais de 20.000 volumes), cantina e sala de lazer de estudantes. Os diferentes departamentos acadêmicos foram alojados em prédios próprios com salas de diretoria, secretaria, de professor, de reunião, de depósito etc. Outras edificações armazenavam o laboratório de biologia marinha, oficina mecânica, posto de abastecimento, carpintaria, garagem central, praça de esportes, casa de hóspedes e residências destinadas a professores e pessoal administrativo, abrigando uma população em torno de 2.500 pessoas, entre alunos, professores e funcionários. Numa das casas ainda seria instalado o Museu Théo Brandão.

A inauguração do Campus Tamandaré, em 29 de março de 1973, seria uma grande solenidade, contando com a presença de autoridades civis e militares, como o governador do estado, deputados e vereadores, oficiais das Forças Armadas Federais e da Polícia Militar, professores e alunos da UFAL, além do Arcebispo Metropolitano D. Adelmo Machado, que benzeu as instalações. Discursaram o Reitor Nabuco Lopes e o Diretor Théo Brandão, entre outros, apresentando-se ainda bandas militares (AZEVEDO, 1982).

O novo campus passaria a abrigar a área de Ciências Sociais e Humanidades, na forma das Faculdades de Direito, Economia e Administração e Educação, e os Institutos de Filosofia e Ciências Humanas, Letras e Artes, com atividades desenvolvidas até o ano de 1976, quando se dá a mudança das instalações para o Campus A. C. Simões, ocasionando, em 1977, a desativação total do Campus Tamandaré. Teria concorrido para este fato o início do funcionamento da indústria química Salgema, com seu potencial de periculosidade devido à possibilidade de vazamentos de gás (AZEVEDO, 1982).

O Governo do Estado, ciente da intenção da UFAL de devolver o imóvel para a Marinha, solicitou em 1977 a ocupação dos prédios com órgãos da Secretaria de Segurança do Estado, assinando convênio no ano seguinte para usufruto pelo prazo de dois anos (CERQUEIRA, 2001). Posteriormente, o imóvel passaria a abrigar o Departamento Estadual de Trânsito de Alagoas – DETRAN-AL, uso que permanece até hoje.

O complexo encontra-se inserido, atualmente, na Área de Preservação Ambiental de Santa Rita – APA de Santa Rita, criada pela Lei Estadual nº 4.607/1984 e regulamentada pelo Decreto nº 6.274/1985, apresentando diversas restrições ao uso do solo. Em 2005, a edificação foi reconhecida como Unidade Especial de Preservação – UEP, conforme dispõe o Plano Diretor do Município de Maceió, Lei Municipal nº 5.486, de 30/12/2005. As UEPs são imóveis cadastrados pela ligação que estabelecem com a evolução urbana e histórica em toda a cidade e como marco de expressão estilística da arquitetura, expressando um valor simbólico para a população.

Você pode localizar esta edificação em Maceió através do Google Maps (clique aqui) e também visualizá-la no Google Street View (clique aqui)!

Referências Bibliográficas

AMARAL, Vanine Borges. Expressões arquitetônicas de modernidade em Maceió: uma perspectiva de preservação. 2009. Dissertação (Mestrado em Dinâmicas do Espaço Habitado) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2009. 174 p.

AZEVEDO, João. Universidade Federal de Alagoas: Documentos Históricos. Maceió, Univ. Fed. Alagoas, 1982.

CAVALCANTE, Simone; VERÇOSA, Élcio. O embrião de um projeto. Alagoas, 03 jan 2011. Disponível em: http://www.ufal.edu.br/ufal/noticias/2011/01/o-embriao-de-um-projeto/ Acesso em: 11 abr 2011.

CERQUEIRA, Thamires Adelino. Resgatando uma história esquecida: A trajetória de ocupação da antiga Escola de Aprendizes Marinheiros de Alagoas. 2001. Trabalho Final de Graduação (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2011. 62 p.

PREFEITURA MUNICIPAL DE MACEIÓ. Plano Diretor do Município de Maceió, Lei Municipal nº 5.486, de 30 de dezembro de 2005.


DOWNLOADS
Para Colorir
Projeto