SÓ SE RESPEITA O QUE SE CONHECE’

Larissa Bastos – Caderno B da Gazeta de Alagoas

Em entrevista, professora responsável pelo projeto fala da importância de difundir e proteger o patrimônio histórico local

Gazeta de Alagoas. Como funciona o projeto?

Adriana Capretz. O Portal de Arquitetura Alagoana consiste em um banco de desenhos, fotografias, maquetes eletrônicas, dados históricos, técnicos e artísticos de edificações marcantes para o patrimônio histórico do Estado de Alagoas, começando pela capital, Maceió. É uma das pesquisas desenvolvidas pelo Relu – Grupo de Estudos em Representações do Lugar.

E como surgiu o grupo de pesquisa?

Criado em 2004, o Grupo de Pesquisa Representações do Lugar é formado por professores, pesquisadores e alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), onde ele é sediado. Conta com infraestrutura de computadores e acervo bibliográfico obtidos a partir de recursos concedidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).

Como funciona o Portal de Arquitetura Alagoana? Quando ele entrou no ar?

Quem acessar o site www.arquiteturaalagoana.al.org.br pode baixar desenhos para colorir, fotos, textos e assistir aos vídeos com passeios virtuais pelas edificações. A intenção é reunir exemplares arquitetônicos de diversos períodos e tipos para que a arquitetura alagoana seja amplamente divulgada para o público em geral. Disponibilizamos o material resultante de trabalhos que estamos realizando desde 2010, mas este acervo está em constante construção, podendo ser ampliado e modificado sempre.

Que tipo de informações e pesquisas são disponibilizadas nele?

Cada edificação apresenta uma foto antiga, algumas recentes (produzidas pelo grupo), imagens do modelo virtual (também conhecido por “maquete eletrônica”), um pequeno texto apresentando a edificação, com dados da época de sua construção e algumas características estilísticas, sua localização no Google Street View, um pequeno vídeo com a maquete virtual e os desenhos para baixar (desenho para colorir e o projeto simplificado). A linguagem é mais simples para ser acessível ao público em geral, incluindo crianças, portanto, decidimos por não usar termos técnicos e científicos.

Qual o objetivo desse site? E como vocês trabalham, nele, a educação patrimonial?

O objetivo é a divulgação da arquitetura alagoana para que ela seja preservada, não apenas as grandes edificações públicas e já amplamente conhecidas e divulgadas, mas outras de igual valor patrimonial que guardam histórias de afeto com a população. A divulgação por meio do site faz com que qualquer pessoa possa acessá-lo, até mesmo turistas que buscam aqui outras opções de lazer além das praias. Entretanto, o objetivo final é que a própria população e, mais ainda, professores, que podem utilizar esse material com crianças, para que elas conheçam seu patrimônio e com isso possam cuidar melhor dele. Crianças são agentes transformadores, e quando a criança conhece uma edificação que viu na escola, que o professor comentou, coloriu os desenhos, ela vai contar à família, vai reconhecer na rua, e já vai crescer com o sentimento de pertencimento e respeito àquilo. Só se ama o que se conhece.

Vocês também têm trabalhado essa educação nas escolas? É um propósito do projeto?

Este é um dos principais propósito do projeto. Para o segundo semestre de 2016, começaremos as visitas às escolas de Ensino Fundamental para divulgar o portal para que os professores conheçam o conteúdo e as formas de utilizar o material em aulas diversas.

Os jogos da memória e cadernos para colorir já têm funcionado nesse sentido?

O “jogo da memória e patrimônio” (já temos o número 1, de igrejas, e estamos desenvolvendo outros para o futuro) e os desenhos para colorir das edificações estão disponíveis para baixar no site, mas também temos exemplares impressos para levar nas visitas às escolas, para poder mostrar aos professores e alunos. É uma forma bem simples de aproximar as edificações de crianças menores, para que o site não seja apenas de interesse de adultos que buscam material de pesquisa histórica sobre Maceió. De forma mais lúdica, a criança vai se aproximando e se familiarizando com o patrimônio e então ela naturalmente se sente pertencente e responsável por ele, tal como já é feito com a educação ambiental há bastante tempo.

Qual a importância de utilizar uma “nova” ferramenta, como a web, na preservação desse patrimônio?

A internet possibilita acesso a um número ilimitado de pessoas (desde que tenham acesso a um computador com internet), o que é cada vez mais frequente, e isso é infinitamente mais abrangente do que um livro impresso ou um DVD que fosse publicado, por exemplo. Até porque o conteúdo do site é dinâmico, pode ser alterado e ampliado com novas contribuições. Quanto mais as pessoas conhecem, mais elas se sentem pertencentes ao espaço da cidade e mais podem lutar para que os locais sejam preservados.

Vocês vêm trabalhando num levantamento do legado histórico na capital do Estado. Como é feito esse levantamento?

A pesquisa é feita dentro da universidade, por estudantes de Arquitetura e Urbanismo. Então utilizamos habilidades e competências já trabalhadas nesse curso, com técnicas variadas de pesquisa (levantamento em órgãos públicos, arquivos, museus, bem como busca por projetos, levantamentos fotográficos etc). Os integrantes do grupo pesquisam, escrevem, fotografam e desenham as edificações.

E que resultado encontraram até agora? Como está no patrimônio arquitetônico?

O conjunto é muito amplo. Buscamos exemplares mais conhecidos e outros que são mais comuns a estudantes de Arquitetura e que devem ser mais divulgados, tanto públicos como privados. O patrimônio de Maceió, assim como em todo o Brasil, sofre bastante com o descaso, o abandono e a descaracterização. Mas isso é resultado não apenas de uma cultura de descarte do que é aparentemente “velho”, de desconstrução e construção contínua da cidade, mas também do desconhecimento e da falta de reconhecimento do que é importante e passível de ser preservado pela população. A Arquitetura constitui a “testemunha” mais sólida e durável da passagem do tempo e deve ser respeitada e protegida, mas só se respeita o que se conhece. Nesse sentido, a maior descoberta desse trabalho mesmo é a possibilidade de descortinar à população uma cidade não muito conhecida, muito mais bela e importante do que aquela que é divulgada pelo turismo, muito além das paisagens naturais.

O grupo trabalha em cima de temas (igrejas, escolas, casas e Unidades Especiais de Preservação). Como isso funciona?

Para organizar o acervo do portal, procuramos iniciar por temas que fazem parte do cotidiano de todos nós, como escolas, igrejas e casas, pois são as edificações que mais nos trazem boas recordações, seja de algum momento de nossa vida, seja da admiração que temos por essas construções.

O que são essas Unidades Especiais de Preservação?

AS UEP são imóveis e espaços urbanos públicos e privados cuja importância histórica e arquitetônica foi reconhecida como relevante para Maceió por constituírem expressão arquitetônica ou histórica do patrimônio cultural edificado da cidade, composta por uma ou mais de uma edificação isolada e suporte físico de manifestações culturais e de tradições populares do município, especialmente a música e a dança folclórica, a culinária e o artesanato. Estão ainda incluídos os logradouros públicos que, pela importância da sua preservação cultural e/ou paisagística, sejam assim declarados pelo Plano Diretor de Maceió, bem como outros que, posteriormente, tenham reconhecida essa mesma importância pelo Poder Executivo Municipal. As unidades selecionadas não são apenas os bens de valor excepcional, mas constituem também espaços associados às práticas imateriais, como, por exemplo, o Mirante da Sereia, que está associado à festa religiosa de Yemanjá, a praça Moleque Namorador, ligada às danças carnavalescas, e a casa de farinha de Riacho Doce, que está conectada com o ofício e modo de fazer bolo das mulheres do bairro. Todos esses espaços urbanos e edificações são registros da história, do crescimento e do progresso da capital alagoana em diferentes períodos.

Outros temas também podem entrar na pauta? Quais?

Estamos ampliando as pesquisas para até o final de 2016 também inserirmos museus, cinemas, praças, hotéis, hospitais, prédios públicos, armazéns, clubes, teatros e muito mais temas, assim como uma seção de arquitetura in memorian (não temos nome definido ainda), que é aquela que já foi demolida, como a Casa Rosa que ficava na Pajuçara.

Qual o estilo de patrimônio mais encontrado em Alagoas no que diz respeito às características da construção?

Ainda estamos trabalhando apenas na cidade de Maceió, e como é uma capital recente, que recebeu os melhoramentos e embelezamentos característicos das cidades brasileiras após a República, o estilo mais encontrado aqui é o eclético (que corresponde, por exemplo, ao Teatro Deodoro, Museu Theo Brandão, Palácio dos Martírios, Associação Comercial etc.) com ornamentos bem marcantes.

Quais os próximos passos do projeto? Vi que pretendem lançar um guia arquitetônico de Maceió. Como seria isso? O grupo já tem mais ou menos definido o que vai entrar?

Estamos tão empolgados com o projeto que esse é o próximo objetivo, sim, e este guia vai surgindo naturalmente com a somatória dos trabalhos. Será de grande utilidade à população e aos turistas e a vantagem da internet é que ele fica todo disponível em rede, sem a necessidade de gastos com publicação em papel, portanto, mais acessível e dinâmico.

Como você avalia a importância de um projeto como esse?

A população precisa conhecer seu patrimônio, se sentir parte dele para poder contribuir para sua proteção e preservação. Só se ama, só se preserva o que se conhece. E se temos as ferramentas para isso dentro de um curso de Arquitetura, a universidade cumpre ainda sua função social de produzir conhecimento para a comunidade.

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